Publicado em Cultura, Viagem

A Geração Que Não Sabe Esperar

A Geração Que Não Sabe Esperar

Telefone nas mãos em qualquer cidade ou país que já estive. Essa é a imagem que me vem a mente agora. Até mesmo nos lugares mais rústicos e nas mais bucólicas paisagens, em algum canto que se olhasse o smartphone despontaria em algum momento, supremo. Mas, afinal, o que isso tem a ver com ser, de fato, a geração que não sabe esperar?

Quando eu me refiro a geração, incluo todos os que vivem nesta Era da Tecnologia. Pois, essa “síndrome” não afeta só os mais jovens não. Há aficionados pela tecnologia de todas as idades.

A questão é tentar entender o porquê de todo mundo precisar ter um aparelho nas mãos. Por que as pessoas escolhem ver o mundo por meio de um telefone celular, ao invés de olhar direto para a paisagem em sua frente e desfrutar sua beleza real e pura?

O mundo visto pela lente do celular

O tempo hoje passa que a gente nem vê. Por que antes a sensação era de que ele não passava nunca? Será porque tínhamos que inventar coisas para passar o tempo e hoje já não sobra tempo para tudo o que temos para fazer?

Aposto que você já foi ao banheiro com o celular na mão, ou já ficou usando o celular durante um jantar com os amigos. Ou ainda quase tropeçou por não tirar os olhos da tela.

Hoje temos a necessidade de sermos onipresentes. Estamos em todos os cantos do mundo sem sair do lugar. Mas isso também cansa.

Para isso vamos tentar fazer uma breve linha do tempo de como nossos ancestrais não tão distantes faziam para se divertir ou fazer de seu tempo algo produtivo. Assim vamos tentar entender o porquê as pessoas de hoje não sabem esperar.

Passatempo

Quando você lê livros mais antigos sobre romances da época de nossos avós e bisavós você consegue ter uma noção clara de como as pessoas de outrora usavam o seu tempo e o que costumavam ter como passatempo.

Uma palavra que se você notar bem caiu em desuso. Hoje em dia não precisamos mais de algo para passar o tempo, mas sim para desacelerar. Nunca se ouviu falar tanto em meditação, mindfulness e minimalismo como hoje em dia.

Mas antes era basicamente assim: as mulheres tricotavam, tomavam chá com as amigas, saíam às compras quando sua situação financeira permitia.

Outras iam dar uma volta para ver o movimento da rua, de repente paravam em uma confeitaria pelo caminho. Outras mais ousadas, se voluntariavam para ajudar a cuidar dos enfermos e crianças nos hospitais pelo mundo.

Já os homens, se reuniam em suas casas ou clubes para fumar seus charutos, jogar cartas ou outros jogos, andar a cavalo, fazer apostas ou coisas do tipo.

Para viajar para algum lugar, os animais eram os meios de transporte, portanto dependia do passo do animal para saber quando chegaria ao seu destino, até a chegada dos primeiros veículos automotores.

Não era possível saber das notícias que aconteciam nem na cidade vizinha em tempo real, quanto mais em outro país ou continente. Quando os primeiros jornais apareceram, falavam sobre coisas irrelevantes em termos de comunicação global.

Quando essa comunicação de fato começou a se estabelecer, o jornal demorava meses para atravessar o oceano e chegar em cantos mais remotos. Afinal, não tinha como postar online, ou mandar via e-mail. Já que a internet ainda era algo que não era palpável, por assim dizer.

Televisão

Com a chegada dos anos 60, ela se tornou a babá, a melhor amiga, a companheira, pois possuía todos os atributos que os passatempos anteriores tinham e muito mais. Por isso ela passou a fazer parte integral da vida das pessoas. Era a nova protagonista da casa. Sim, estou falando da televisão.

Essa foi a primeira grande tecnologia depois do rádio que teve realmente impacto na questão do entretenimento na vida das pessoas. As vozes gravadas nos rádios, se transformavam em telenovelas e depois em outros programas. Assim a audiência foi crescendo conforme o aparelho foi se popularizando.

Por vezes, ela era compartilhada por amigos, vizinhos e desconhecidos, a fim de desfrutarem do entretenimento no seu mais elevado grau de fixação e de ficção até o momento. A sala virava um cinema.

Afinal, as primeiras televisões eram privilégio somente dos mais abastados, como aconteceu depois com os primeiros celulares, até a sua vigente democratização.

Hoje aquela antiga TV foi descartada. As que sobraram viraram peça de decoração ou foram substituídas pelas SMARTV’s, capazes de desempenhar as funções mais impressionantes possíveis.

Televisão antiga

Mais do que as potentes e modernas televisões, hoje em dia, reinam absolutos os aparelhos individuais de smartphones. Foi-se a época de brigar pelo controle da TV. Ou dividir a sala com o restante da família.

Cada um agora vai para seu quarto e não precisa dividir mais nada. Cada um faz o que quer no seu próprio telefone que é só dele e de mais ninguém. A senha, que é a primeira coisa a ser inserida no celular após a compra, não me deixa mentir.

Com a multiplicação da tecnologia, as opções de entretenimento se tornaram inúmeras e tudo ficou ao alcance de um clique. Quase como se o telefone fosse a continuação do braço, como bem previu Marshall McLuhan, quando escreveu “Os meios de comumicação como extensão do homem”.

Celular ou Acompanhante?

As paisagens são delimitadas pela lente da câmera. Ninguém aproveita mais o momento sem a necessidade de registrá-lo, para o quanto antes compartilhar com o mundo virtual. O que importa naquele momento é o recorte feito pela tela do celular que dá a sua versão da realidade.

Recorte Momento Foto

Aqui aquela máxima de que a tecnologia aproxima quem tá longe, mas afasta quem está perto se torna realidade constante.

O ciclo se torna sem fim. Você posta e analisa o que foi postado pelos outros. E então, o medo da solidão ou talvez de perder a última foto ou “bafo” do momento, faz com que as pessoas deslizem seu feed à exaustão em busca da próxima foto.

Temos até nome para isso agora: FOMO, “fear of missing out”, que significa ter medo de perder algo, de ficar de fora, sabe como?! Claro que você sabe.

O imediatismo, a ânsia de alcançar o objeto de desejo, seja ele algo ou alguém, nos torna a geração dos apressados. Esse alto nível de stress e ansiedade não poderia ter um resultado diferente.

Crianças inseguras, diante de expectativas inatingíveis e sem domínio próprio, tornam-se serem humanos distraídos e incapazes de viverem, ou quem dirá, apreciarem o momento.

O medo da solidão é tão constante que pensar em ir ao banheiro sem o celular causa a sensação de que está faltando alguma coisa. o tal de FOMO novamente.

Sem contar que esse aparelho tão pequeno, tem todas as respostas do mundo em uma rápida pequisa nos mecanismos de buscas, mas elas são muito mais do que um indivíduo é capaz de processar.

Por volta de 3 anos atrás, mandei meu celular para o conserto e decidi aproveitar para ficar desconectada por um período maior, algo em torno de uns 20 dias. Sendo assim, excluí o acesso às redes sociais pelo computador também.

Foi uma experiência curiosa. Nos primeiros dias, tive o que posso chamar de abstinência. Ficava inquieta, incomodada. Tinha a todo o momento que procurar algo para me distrair e a televisão voltou a ser minha companheira no fim do dia e em momentos mais solitários.

Era como se eu estivesse por fora do que estava acontecendo. A ausência nas redes sociais fez com que eu deixasse de pertencer ao círculo de amizades distantes ao qual as redes sociais me garantiam a adesão.

Midia Social

Fiquei me perguntando se houvesse uma pane mundial, como essas que deixam as pessoas alvoraçadas, enfurecidas e revoltadas com um possível bloqueio do WhatsApp ou uma instabilidade no Facebook ou Instagram.

Acredito que as pessoas enlouqueceriam, o que me faz pensar que a tecnologia é um caminho sem volta.

Bom, depois desse tempo voltei a usar o telefone e as redes sociais, acredito que de maneira mais consciente. Não pude evitar de me sentir novamente “parte do jogo”, mas também não posso negar o quanto me fez bem escolher estar ou não nele.

Saber que posso viver sem essa extensão do meu corpo me fez ter um maior auto conhecimento. É inevitável não me lembrar de Zygmunt Bauman. Um sociólogo que brilhantemente nos anos 90 descreveu com impressionante lucidez o mundo moderno – ou pós-moderno, se assim o desejar:

em uma vida moderna líquida não há laços permanentes, e qualquer coisa que seguramos por um tempo deve ser amarrada vagamente para que os laços possam ser desatados novamente, tão rápido e tão facilmente quanto possível, quando as circunstâncias mudarem”

Se Não Teve Foto Não Aconteceu

Quantas pessoas atravessam as ruas sem tirar os olhos da tela dos telefones, correndo o risco de serem literalmente atropeladas. Outras estão diante de uma paisagem de tirar o fôlego, mas o que importa é mostrar para outra pessoa, porque se eles não virem não vão acreditar que é verdade.

Quem nunca ouviu algum espertinho dizendo que “se não teve foto não aconteceu”? Afinal, vivemos uma época em que tudo que fazemos deve ser corroborado com uma foto nas redes sociais. Nem namorado você pode afirmar que tem se não tiver uma foto estampada do “mozão” no Instagram.

Um dia eu estava falando sobre um lugar em que estive que era realmente maravilhoso, mas não tive oportunidade de tirar nenhuma foto e ouvi que era muito estranho eu ter estado naquele lugar e não ter feito fotos.

Se isso tivesse ocorrido anos atrás, provavelmente eu não seria inquirida quanto às fotos que não tirei ou tirei e não eram exatamente como vi. Simplesmente porque antes não havia a facilidade de obter um click como há hoje.

A minha vontade ou capacidade de registrar não é mais levada em conta. É quase que mandatório que você o faça.

Outro dia tirei uma foto de um céu absurdamente rosa, pensa na minha decepção quando me dei conta que meu celular não era fiel ao que eu realmente estava vendo. Como eu poderia ser crível se a foto em si não era?

Céu rosa

Sem contar que em algum ponto vou estar tão absorta ao momento e ao cenário que posso me esquecer de registrar ou não ter meios de fazê-lo e preciso estar bem quanto a isso. Gosto muito de compartilhar as minhas experiências, mas jamais terei isso como obrigação.

O grande problema é que vivemos em uma sociedade que tem que provar tudo o tempo todo para todos e a si mesmo. Talvez seja a hora de tentar levar a vida mais leve, curtir aquela viagem dos sonhos sem ter a obrigação de mostrar que você chegou lá.

Fazer uma paralelo da sua vida com as redes sociais incessantemente não pode ser saudável. Ainda que nosso trabalho seja “online” precisamos nos desconectar dessa realidade virtual em algum momento e desfrutarmos do que a vida tem para nos oferecer de forma real.

Autoconfiança é uma coisa escassa atualmente e quando você se vale dela, você passa a desfrutar de coisas surpreendentes, pois agora você é testemunha ocular de sua própria vida. Com isso, você passa a ter o controle dela, mas isso talvez demande mais esforço. E mais uma vez citando Bauman:

Não parece haver esforço na parte virtual de nossos vidas. Para mudar o mundo, os jovens precisam trocar o mundo virtual pelo real.”

Às vezes é mais cômodo o atalho, não é mesmo?

E você, o que pensa dessa ânsia em que vivemos o tempo todo, esperando por algo que nem sabemos o que é ou se vai acontecer?

Deixe seu comentário e conte para a gente como é sua relação com a vida virtual.

Até o próximo post!

KS.

 

Autor:

Jornalista curitibana, apaixonada por viagens e outras culturas, compartilhando a própria perspectiva sobre lugares, pessoas e costumes.

Um comentário em “A Geração Que Não Sabe Esperar

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