Publicado em Cultura, Dicas, Viagem

A Viagem Por Detrás da Foto

A Viagem Por Detrás da Foto

Desde a época das polaroides instantâneas que se materializavam como mágica, registrando a imagem no mesmo momento do acontecimento, o ser humano passou a ter essa fixação por fotos. Agora o que está por detrás de uma foto nos dias de hoje?

Polaroid

Muito antes do aparecimento das tecnologias instantâneas, existia a necessidade de registrar o cotidiano, as pessoas, as paisagens. Tudo para deixar esse “registro para a posteridade” ou estampar um retrato na sua biblioteca.

Com a chegada dos smatphones, cada pessoa passou a ter o poder de fazer seu registro de qualquer coisa que aparecesse pela frente. Desde um prato de comida até situações inusitadas capturadas ao redor do mundo.

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Hoje ninguém pode fazer mais nada que não corra o risco de ser devidamente gravado por qualquer um que esteja próximo ao fato.

Desde então as fotos continuam tendo o poder de recortar a realidade e mostrar somente o que o detentor da câmera ou smartphone quer, com algumas exceções, recorrentes de erros que são constatados só depois que as fotografias já foram espalhadas pelas redes.

E todo mundo sabe que uma vez na rede, é impossível resgatar o que foi compartilhado sem que os cliques já tenham sido visualizados por dezenas, milhares de expectadores vorazes pela novidade.

Isso muitas vezes acaba gerando fofoca ou frenesi, por mais insignificante que seja a questão. Se teve foto tem motivo para falar sobre a situação registrada. Claro, cada um da sua própria perspectiva.

 

Capturar o Momento

Viajar é a forma de consumo que já vem de tempos remotos, onde aquele que tivesse cruzado o oceano era quem podia mais. Para as madames viajar para a França para comprar seus vestidos era o ápice do poder econômico. Mas, ainda hoje se dar ao luxo de uma viagem internacional ainda não é para todos. 

Acredito que ainda vamos demorar para chegar nesse patamar, se é que o vamos alcançar. Mas, hoje em dia, já é muito mais democrático poder viajar para todos os cantos do mundo independente do quão gorda é sua conta bancária.

Nesse mesmo caminho, viajar se tornou a nova forma de ostentação. Pessoas se endividando horrores para pagar por viagens em que o único objetivo é tirar fotos para postar nas redes sociais.

Carpe Diem já não tem o mesmo significado de outrora. As pessoas não aproveitam o dia da forma como faziam. Agora o importante é o resultado da foto para postar e descobrir quantos likes e followers seu post vai alcançar.

Follow

LIKES E FOLLOWERS

Marc Zuckerberg deu uma declaração que pode mudar o rumo do compartilhamento de imagens. Você pode pensar que eu estou exagerando, mas vamos em frente.

Surgiu um boato, que agora já foi comprovado, de que o Instagram está testando ferramentas para esconder o número de likes que aparecem nas fotos em forma de coração abaixo de cada foto. Foi o suficiente para deixar os usuários afoitos com a notícia.

Seria isto bom para frear essa necessidade desesperada por atenção em forma de likes e followers ou faria com que a plataforma perdesse o interesse dos que diariamente vivem para alimentá-la?

Like

Houve quem aplaudisse a ideia, alegando que finalmente o Instagram se mostrou preocupado com a saúde mental dos seus usuários e que uma atitude assim já era esperada há bastante tempo.

Obviamente, pessoas com um grande engajamento, número de curtidas e de seguidores, começaram a se preocupar se todo o esforço empreendido até então não seria jogado no lixo ante a medida.

Outra questão seriam as empresas que fazem seus negócios pela plataforma e não teriam mais este modo de promover seus produtos cheio de likes, sejam eles coisas, lugares ou até mesmo pessoas. 

CANDID x PLANDID

Em uma época em que o preço de um filme usado nas antigas câmeras para revelar as fotos era contado por poses, podemos dizer que era realmente uma revelação quando você descobria como tinham ficado suas fotos. 

Isso quando todas elas não eram queimadas e você ficava sem nenhuma lembrança daquele momento que você desejava registrar.

Com a chegada das supercâmeras esse problema não existe mais. E um novo comportamento surgiu de maneira mais contundente no mundo virtual.

Dezenas, centenas de fotos de uma mesma coisa podem ser tiradas sem esperar para ver o resultado que sai na hora na tela. E elas podem ser deletadas e refeitas a todo o momento.

Hoje, as reuniões com os amigos na sala de casa para mostrar as fotos de infância, praticamente acabaram. Raras são as vezes que as pessoas apreciam mostrar fotos tão reais como poderiam ser.

Não é preciso mais economizar nas poses e existe uma quantidade infinita de opções de filtros para deixar sua foto ainda mais perfeita. Tudo pode estar a mostra para todos.

Dois termos estão cunhados para definir o tipo de foto que está sendo apresentada nos feeds da vida:

Candid é um termo em inglês utilizado para definir fotografias que não foram planejadas, não foram “posadas” e não houve nenhuma preparação para obtenção do resultado final. Essas fotos são espontâneas.

Candid Cat

Normalmente, para capturar um clique espontâneo, uma tentativa é mais do que suficiente. E está no instante a capacidade de registrar a realidade da maneira mais fidedigna possível.

Plandid, em contrapartida, é a definição onde o que aparece na foto não é o retrato fiel do acontecimento em si, mas apenas uma possibilidade artificial de algo que se deseja mostrar. Ou seja, algo posado, pensado para parecer ser o que se demonstra.

Plandid seria a união de Planned e Candid, e apesar de ter um planejamento, a intenção é parecer autêntico, natural, cândido mesmo. Às vezes funciona, às vezes não.

Plandid

Com isso, não é incomum que hajam na maioria das vezes diversas tentativas na busca do clique perfeito. E não incomum, treinos e ensaios para a realização dessa foto. 

FOMO

Diante de tantas neologias que acompanham o desenvolvimento da tecnologia, “Fear of missing out” é o termo da vez. As pessoas tem abstinência de redes sociais. É o tal medo de não pertencer, de não estar por dentro de tudo.

Existe uma dedicação extrema para o “bafão” do momento, esquecendo que tudo isso é efêmero, amanhã ninguém mais se lembra de nada. Mas, se amanhã pode ser tarde, ninguém quer perder nenhuma oportunidade.

Likes e Followers

Vivemos a era das experiências únicas. Todos querem ser os primeiros a publicar algo, experimentar algo, ou criar algo.

Todo mundo também sabe do que está falando com a propriedade de um estudioso que passou meses, anos enclausurado em um laboratório implementando uma metodologia a fim de constituir um resultado honesto e embasado em fundamentos notórios.

As pessoas não querem abrir mão de expressarem sua opinião já que agora podem se transvestir de uma tela de computador e evitar a retaliação direta, ainda que mais recentemente já existam consequências e nem sempre ficam imputáveis ante suas manifestações.

Não estou dizendo que o excesso de informações que nos é disponibilizado hoje é prejudicial. Pelo contrário, é riquíssimo, mas se não soubermos filtrar e ordenar essas informações seremos mais um “alguém” que só está cheio de vazio.

Cheio de Vazio

Consequências

Que muitas pessoas já morreram – isso mesmo, MORRERAM – em busca de uma foto perfeita e continuam morrendo já é sabido de todos. A questão é porque elas continuam se arriscando para manter uma audiência.

Isso tudo é muito novo, os efeitos mais profundos dessas atitudes só serão sentidos daqui a algum tempo. Mas, as consequências de uma geração que decide fazer o que for preciso para ser aceito já está às portas.

Algumas vezes as pessoas colocam suas próprias vidas em risco, na busca da foto mais interessante, mais ousada, capaz de chamar a atenção daquele que está correndo o feed à procura de novidades e conseguir o cobiçado like.

Topos de prédios, trilhos de trem, carros em movimento. Vale tudo para se sobressair no mundo dos influencers, que como o nome já diz, influenciam as pessoas a seguirem seus passos.

Perigo no trilho do trem.jpg

Seria uma busca para encontrar seu lugar ao sol, no mundo das celebridades instantâneas que desfrutam de glamour e fama, sem muito esforço. Mas o custo pode ser alto e causar arrependimentos.

Essa necessidade de estar sempre um passo à frente está gerando pessoas ansiosas e por demais angustiadas, que vivem a vida pessoal como se fosse mais um dia de trabalho para se apresentar impecável diante do mundo.

Não obstante, pessoas que quebram esses paradigmas e são corajosas e ousadas o suficiente para “dar a cara a tapa” e mostrar a vida como ela é, também alcançam seu público.

Aquele que está cansado das máscaras e anseia por uma vida simples e sem maquiagem, no sentido mais amplo possível da palavra.

Resumo da Ópera

No fim das contas está tudo bem não gostar do lugar para o qual você guardou tanto dinheiro para viajar. Esquecer de tirar aquela foto de um lugar incrível também não é pecado. O que vale é desfrutar do momento e prezar pela sua própria felicidade.

Não podemos esquecer a viagem que existe por detrás da foto. Ela pode ser muito mais interessante que um simples clique ou absolutamente sem graça. Mas, esta é a realidade: a vida nem sempre é tão incrível ou miserável quanto uma captura pode mostrar. 

E você, o que tem determinado seus cliques? Já parou para pensar nisso?

Bom, por hoje é isso!

Até o próximo post!

KS.

 

 

Autor:

Jornalista curitibana, apaixonada por viagens e outras culturas, compartilhando a própria perspectiva sobre lugares, pessoas e costumes.

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