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Um Sentimento Chamado Camboja

Um Sentimento Chamado Camboja

Esse é um daqueles lugares que você fica meio sem palavras ao descrever. Impossível não despertar em você um sentimento por esse país e a única palavra que encontrei para descrevê-lo, é seu próprio nome: Camboja,

Se você nunca ouviu falar sobre o Camboja, é importante saber que eles viveram um recente genocídio que dizimou quase 25% da população do país.

Com o intuito de garantir o domínio sobre esse povo, o líder do Khmer Vermelho, Pol Pot, matava todos os que tinham estudo e algum dinheiro. O resultado foi a morte de aproximadamente dois milhões de pessoas.

Tudo isso entre os anos de 75 e 79. Sim, 1975 e 1979. De pensar que isso aconteceu “ontem” você passa a olhar as coisas por lá com outros olhos. Um lugar de muitos extremos, mas, nem de longe o que se tem é só lembranças ruins.

Para ser sincera a viagem para o Camboja foi meio que por acaso e de última hora, como o sangue brasileiro insiste em impor. O visto de entrada no país, conhecido dos viajantes, é o “visa on arrival“.

Traduzindo em miúdos, é aquele visto que você tira no momento em que desembarca no aeroporto de destino, paga a taxa (se houver) e pronto, você está admitido (ou não…rs). Sendo assim, era só comprar os tickets e terminar de fazer as malas que ultimamente andam sempre semi-prontas.

Minha primeira viagem para o sudeste asiático, conhecido como Indochina e destino comum entre brasileiros que decidem se aventurar em busca de paraísos desconhecidos, começou pelo Camboja, mais precisamente, a cidade de Siem Reap, que apesar de não ser a capital, é a mais importante cidade turística do país.

É em Siem Reap que fica o “Angkor Wat”. Em khmer (idioma local), “wat” significa “templo”, e Angkor siginifica “Cidade”. Portanto, “Cidade do Templo”.

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Angkor Wat – o mais importante monumento do Camboja

Datado do século XII, o Angkor Wat é considerado o monumento religioso mais importante já construído e, em termos arqueológicos, a estrutura toda é um dos mais importantes tesouros existentes.

O complexo foi tombado como patrimônio da humanidade pela UNESCO em 1992. Para você ter uma noção da importância desse templo para os khmer, ele não só estampa as cédulas do “Reil” (esse é o nome do dinheiro cambojano), como também estampa a bandeira do Camboja, fazendo com que ela seja a única bandeira no mundo a possuir um monumento como símbolo.

Bandeira do Camboja
Bandeira do Camboja – com o monumento Angkor Wat exibido nela

Quando você se depara com esse templo já de longe, percebe o motivo de sua importância. O lugar é gigante e realmente impressiona, além de ser também o mais importante templo dentre todos para os cambojanos, que em sua esmagadora maioria, é de budistas.

Com uma estrutura em forma de quadrado, o templo possui um lago artificial que contorna todo o complexo. Mas tudo isso você só descobre quando chega lá mesmo.  Porque todo o protagonismo inicial, é claro, fica com o Ta Prohm Wat, já que foi lá um dos cenários mais famosos do filme Tomb Raider, estrelado pela lindíssima Angelina Jolie.

O templo é um chamariz de turistas. Confesso que achei realmente surreal estar em um cenário de uma produção em que você não sabe o que é verdade e o que é computação gráfica. Tudo é tão imponente e com aquelas árvores intrincadas nas construções, que parecem de mentira, tudo fica mais magnífico ainda.

E o mais legal é que as árvores ainda estão vivas e seguram toda a estrutura do templo. Se as árvores fossem tiradas dali o templo não aguentaria e certamente ruiria.

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O País das Minas

Mas, apesar de toda essa opulência, o Reino do Camboja, nome oficial, é um país de um povo sofrido. Especialmente por suas recentes guerras, que ainda perduram e insistem em fazer parte do seu cotidiano como um fantasma voltando para assombrar a população.

A prova viva disso são as mais de quatro milhões de minas terrestres espalhadas pelo seu território, que amputam milhares de pessoas todos os anos e ceifam outras tantas. O Camboja encabeça a lista dos países com mais minas terrestres no mundo todo. Além das incessantes disputas territoriais com seus vizinhos Tailândia e Vietnã.

Apesar de tudo isso, seu povo sempre tem um sorriso para oferecer aos seus visitantes. Humildade, respeito e cordialidade podem ser a tradução do que vi na maioria do povo cambojano. Eu não sou supersticiosa, mas achei muita ironia que o mesmo solo que esconde as minas, faz brotar um mar de trevos de quatro folhas.

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Trevos de quatro folhas no caminho de um dos templos

Por isso, já nos primeiros dias tudo se tornou um paradoxo para mim. Um misto de magia e de impotência. Esse sentimento que tenho pelo Camboja é inominável, porque, pelo menos para mim, é muito diferente de tudo que já vi e vivi.

De um lado, porque a pobreza extrema alcançou um novo patamar. Depois, porque é impossível não se apegar as pessoas com as quais você convive diariamente e que são tão amáveis com você.

Ao mesmo tempo, os vendedores, que vão de criancinhas até aos amputados pelas minas terrestres, por vezes, beiram a hostilidade na ânsia de vender seus produtos e prover seu sustento.

O que os faz proferir quase um mantra de insistência para que você compre alguma coisa deles, como se estivessem em transe e só despertassem dele quando ouvissem como resposta um “sim”. Isso exige que você seja enfático e contundente se não tiver a intenção de comprar nada.

Uma vez, estava eu no mercado noturno pensando em algo para levar de presente para as minhas irmãs quando avistei lenços lindíssimos e comecei a passear meus olhos sobre eles. Foi então que a vendedora veio e começou a tirar vários lenços dos pacotes e me vestir com eles.

Após decidir que estávamos famintos e que retornaríamos às compras mais tarde a vendedora imediatamente começou a gritar em um inglês meio que ininteligível dizendo que se abrimos os lenços teríamos que comprar. Assustada, fui me afastando com os gritos dela: “Turistas que não compram não são bem-vindos em nossa cidade”.

Após visitarmos outros mercados e lojas, acabei conseguindo comprar meus lenços e souvenirs. Percebi que a insistência e, por vezes, até o constrangimento para que compremos, é uma prática comum até mesmo nas ruas do Camboja. No entanto, não revivi aquele episódio pavoroso em nenhum outro lugar. Ainda bem!

Em contrapartida, o hotel e os restaurantes que frequentei, sem a obrigação de vender algo para os turistas, tinham a cortesia e a gentileza típicas desse povo. A humildade faz parte do dia a dia convivendo com eles.

Ninguém grita, ninguém é rude, tudo é feito para que a estadia dos turistas no país seja a mais tranquila e agradável possível.

“Peixe Pedicure”

Em uma de minhas andanças pelas ruas de Siem Reap, avistei um lugar onde tinha aqueles peixinhos que fazem “faxina” no seu pé comendo cutícula e carne morta, ecaaa!

Para dizer a verdade, nem pensei naquelas conversas que dizem que você pode pegar alguma doença transmitida pela água contaminada por outras pessoas que tivessem usado o tanque anteriormente e que não não teve a água trocada.

Achei aquilo tudo tão divertido e só me lembrava de ter assistido um episódio do “The Simpsons” anos atrás que me deixou com muita vontade de experimentar.

Não pensei duas vezes, sentei e comecei a puxar a barra da calça, já que estava usando jeans. Na mesma hora umas três pessoas vieram me ajudar. Seria cômico se não fosse trágico, mas finalmente consegui erguer a barra o suficiente para imergir meus pés junto dos peixinhos.

Fish Pedicure
“Fish Pedicure”

Depois disso foi só vexame. Não conseguia ficar mais do que dois segundos com os pés dentro da água. Não sei explicar, mas a sensação deles comendo sua pele morta é, além de meio nojenta, esquisita demais. No que eles se aproximavam dos meus pés eu já tirava e quando não tirava, gritava.

Não preciso nem dizer que à essa altura eu era o espetáculo do lugar. E olha que costumo ser bem discreta na minha vida em geral. Mas aquilo realmente me pegou de surpresa. Foi um mico “gorilesco”!

Enfim, após ter algum sucesso e alimentar os peixinhos por alguns minutos, retirei os pés definitivamente da água. Nisso, um rapaz veio com uma toalha para secar.

Quando fui pegar a toalha ele se abaixou e começou a secar os meus pés muito cuidadosamente. Fiquei um tanto constrangida, mas deixei ele continuar para não tornar aquela situação ainda mais vexaminosa.

Naquele mesmo dia fui a um restaurante comer “fried rice”. E preciso dizer que foi lá que eu experimentei no melhor que eu já provei na minha vida. Já havia comido muitos antes e comi muitos depois. Mas, aquele que eu comi por lá vai ficar na memória e no paladar para sempre.

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Outra coisa que eu adorei no Camboja foi andar de tuk-tuk. Havia solicitado o traslado até o hotel antecipadamente. Após 15 horas de voo (Londres/Bangkok/Siem Reap), eu estava muito cansada e tudo que eu queria, além de um bom banho, era dormir por pelo menos duas horas antes de começar a explorar a cidade.

Mas o motorista do hotel atrasou, e eu já ia atrás de outro táxi, até que eu vi um moço com o meu nome na placa. Engraçado é que ele parecia saber que eu era a turista que ele ia levar até o hotel porque ele veio direto em mim antes de eu me manifestar. Quando fomos até o carro, vi que não era bem um carro, mas o tuk-tuk.

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Eu sabia que eventualmente eu iria andar neles, mas não estava preparada para andar na chegada, tão cansada e ainda com as malas. No começo, quase saí correndo para procurar um táxi, mas o motorista era tão querido que eu resolvi arriscar.

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A viagem até o hotel demorou uns vinte minutinhos e foi legal ver o trajeto sem janelas interferindo a paisagem. Depois disso, o tuk-tuk era meu meio de transporte favorito e usei carros somente para caminhos mais longos ou quando estava com os guias turísticos que nos buscavam de carro, de van ou de ônibus. Mas essa história eu conto uma outra hora.

O Camboja foi uma grata surpresa. Digo surpresa porque eu já tinha grandes expectativas ao visitar o país. Mas, sem dúvida, elas foram superadas.

Quando chega a hora de partir, me despeço da equipe do hotel em que fiquei hospedada e em especial da recepcionista. Peço a ela para tirar uma foto para lembrar dos bons momentos que vivi lá. Seu nome é Kimsong, o nome que descreve essa suave melodia que me acompanhará por muito tempo.

Kimsong – recepcionista do hotel

Deixo o Camboja com aquele sentimento inominável e uma vontade feroz de reescrever uma história que nem é minha e que não sou capaz de compreender. Espero voltar um dia nesse país tão pobre, mas que foi capaz de me enriquecer tanto.

Já foi para o Camboja? Pensa em ir um dia? Comente e compartilhe aqui o que mais gostou ou o que deseja conhecer no país.

Eu fico agora por aqui e até a próxima viagem!

KS.